Desabafo sobre meus cachos e umas coisas a mais


Eu pensei muitas vezes se devia ou não escrever esse post, mas como é algo que sinto a muito tempo, achei que vale minhas palavras e principalmente, contar um pouco sobre a minha vida e meus sentimentos, afinal, o blog começou desse jeito não foi? 

Eu nasci com cabelo enroladinho, (que nem o da propaganda da Johnson's baby) e um pouco mais. Já fui em salões que chamaram meu cabelo de "ruim", na escola recebi o carinhoso apelido de "bruxa", já tive que cortar meu cabelo quando era criança porque "doía pra pentear", passei grande parte da minha vida com cabelo preso, entre todas as dificuldades que muita gente cacheada já passou e ainda passa. Hoje vejo que muito além de "brincadeira de criança", vivi vários tipos de preconceito mascarado, bem diferente dos cachos poderosos que voltaram com tudo e com força de uns tempos pra cá. 

Quando eu era criança, eu tinha o sonho de alisar meu cabelo. Lembro de eu bem pequena pedir pra minha mãe passar alisante no meu cabelo, mas ela dizia que criança não podia, só com 15 anos. Pra me consolar, minha mãe passou várias vezes um produto chamado Toin, um relaxamento para cabelos rebeldes. A primeira vez que fiz foi nesse dia do conjunto vermelho. Na época eu não gostei porque não alisou meu cabelo, mas de alguma forma ele diminuía o volume do cabelo, e ajudava muito minha mãe a cuidar de mim, o que fez com que eu repetisse o processo uma vez por ano. 

Eu sempre gostei de cabelo grande, o que mais uma vez se torna um problema pra quem tem cabelo volumoso. Sempre quis ter aquele cabelo que chegasse na barriga, mas não tinha como. Quando ele começava a armar muito, a alternativa era buscar algum penteado como um rabo de cavalo, trança ou Maria chiquinha. Mas eu sempre fui encantada com cabelo solto, e eu me sentia mal por usar o meu tão pouco. Só usava no dia que lavava o cabelo ( meu cabelo é fino e seco, não posso lavar todos os dias) ou quando minha mãe usava litros de creme pra conseguir definir os cachinhos com o dedo.

Pouco tempo depois, eu quis fazer uma franja. E foi uma das piores decepções que tive com meu cabelo. A franja ficou horrível, e tive que usar faixa de cabelo até crescer de novo. Usava faixa com cabelo solto, preso, de todas as formas possíveis. Passado o trauma, fiz uma mecha na frente, onde seria a franja, já que minha mãe não deixou eu fazer mechas no cabelo todo (estava na moda! Kk Hoje vejo como era brega), e mais uma vez eu tentei voltar a usar meu cabelo solto. E veio a pior fase: a que ganhei o apelido de bruxa/cabelo bombril na escola. 

Não existe nada pior do que essa fase. Hoje pouco me importaria, mas pra uma criança de 8,9 anos, isso muda muita coisa. E em mim criou o sentimento de inferioridade, de que eu não era bonita por causa do meu cabelo, e isso começou a influenciar várias áreas da minha vida. 

Passei anos usando meu cabelo preso. Eu me sentia o verdadeiro patinho feio. E assim foi, até meus 13 anos, quando fiz minha primeira escova progressiva. Não foi a solução dos meus problemas (já que mais uma vez só abaixou o volume), mas já se tornou mais fácil pra criar a rotina do secador. Vou confessar que não sou muito fã da chapinha, pois desde nova minha mãe sempre me alertou do quanto era ruim pro cabelo, e como fazia numa alta frequência, sempre tive medo de estragar meu cabelo, e ter mais trabalho ainda. 

Minha vida com progressiva era assim: eu ia no salão,  fazia o processo, não ficava bom, e eu tinha que voltar umas 3x até que meu cabelo ficasse liso. Sempre saia decepcionada, pois os cabeleireiros prometiam um efeito liso, e eu sempre tinha que voltar pra refazer. Mas o ápice aconteceu perto dos meus 15 anos: um péssimo profissional passou um produto vencido no meu cabelo, e não preciso nem dizer que ficou péssimo, o que resultou no cabelo mais curtinho que eu já tive, um pouco acima do ombro. 

Mais ou menos um ano e meio depois, meu pai conheceu a empresa Madarrô, e um dia me levou lá. A moça me garantiu tanto que a escova alisaria, que me chamou pra ser modelo deles em um workshop para profissionais. Eu fui, e na mesma hora eles lavaram o cabelo, e eu fiquei encantada. Finalmente um produto que fosse compatível com meu cabelo. E assim criei uma rotina de progressiva.

E eu passei um bom tempo juntando grana e fazendo progressiva em cabelo grande (nunca fui fã de cabelo curtinho). Juntava minha mesada, ou parcelava a progressiva, e criei uma média de aplicação de 3x no ano. Não me arrependo em momento algum. Cheguei a ter até franja em uma dessas épocas, Em outra até pintei meu cabelo de loiro escuro, sem pó descolorante nem nada. Esperei crescer e depois virou uma californiana, até que cortei pra não precisar pintar de novo. 

Mesmo com progressiva, eu sempre escovava meu cabelo depois de secar (a maioria das progressivas é termoativa), e eu sempre evitei o uso de chapinha. Com o loiro, meu cabelo ficou mais sensível ainda, aí que eu não usava mesmo. 

Depois cheguei a fazer um processo de californiana em casa, porque no salão não fizeram nem teste, recusaram logo de cara por meu cabelo ter química. Mas teve uma época que eu precisava passar progressiva e fiz uma das maiores besteiras com meu cabelo: passei um relaxamento com base de Guaridina (próprio para cabelos escuros). Não alisou, mas facilitou com o volume na hora de escovar. O pesadelo veio um pouco depois, quando eu quis mudar. Fui em uma perfumaria, comprei tudo o que eu precisava pra fazer ombré e luzes. Cheguei no salão e a moça fez o teste: meu cabelo não aguentaria. 

Saí do salão chorando. A moça chegou a me sugerir que eu podia cortar meu cabelo pra mudar, mas eu sempre gostei dele grande. Guarnidina não é compatível com nenhum pó descolorante. Naquela época ainda estavam desenvolvendo um (não sei se já existe). Depois daquele dia jurei que nunca mais colocaria qualquer coisa a base de Guarnidina no meu cabelo. 

Dois anos e meio separam o dia do salão com o dia que eu finalmente fiquei loira. Na verdade, eu acabei ficando loira por acaso. Mais uma vez fui no salão com a idéia de querer mudar. Dessa vez, fui bem mais desencanada, e com várias alternativas: ou eu faria ombré, ou pintaria meu cabelo de castanho escuro. No fim, optei por um processo chamado balaiagem, que são luzes na parte superior do cabelo. Ficou lindo, (veja o post), mas na época eu achei que ficou muito marcado e contraditório com a cor do meu cabelo. Aí joguei o loiro claro, e, sério, amei o resultado, que ficou com luzes douradas. Mas, como vida de estudante não é fácil, manter o loiro sai caro, e no momento eu não tinha como arcar com os custos. Foi assim que voltei pra morenice, e, também não me arrependi. Hoje, grande parte da minha raiz já nasceu e eu continuo fazendo escova regularmente, mas já faz mais de um ano que não faço progressiva. Não por ser contra o processo, nem por estar em transição capilar: porque eu quero eliminar as químicas mais pesadas do meu cabelo. 

Mas o que eu quis dizer depois desse texto imenso contando a minha vida inteira? 

Durante a minha vida, por várias vezes sofri um preconceito mascarado, em relação ao meu cabelo. Minhas amigas próximas sabem o quanto sofri, sem nem saber o que era. Foram viagens que evitei piscina, ou vezes que evitei qualquer coisa que estragaria minha escova, e sempre fiz de tudo pra que ela "durasse mais um pouquinho". Foram vezes que fui no salão e o procedimento sairia mais caro porque meu cabelo "é ruim". 

Acho lindo ver como as coisas mudaram. Hoje em dia, vejo divas passando por transição capilar, e já vi várias pessoas me perguntando o motivo que eu também não faço. A resposta é simples: eu não estou pronta. Um dia quem sabe, eu saio cacheada por aí, mas hoje, eu primeiro preciso aprender a gostar dos meus cachos, pra depois sair com eles por aí. Talvez eu precise me acostumar com o volume, já que sempre gostei de tudo controlado. A Kamila de hoje, prefere o cabelo controlado, mas quer aprender a conviver com o que é, e vai eliminar a química do cabelo. E não me julguem: cresci numa sociedade em que ter cabelo cacheado "era feio".

Mas de tudo, uma coisa que me deixa muito feliz é saber que hoje o cabelo cacheado e volumoso não é mais um monstro, e que a galera que julga a textura do cabelo do colega está aprendendo que isso tem nome e é crime: Preconceito.

Já faz tempo que eu precisava dizer tudo isso, e agora me sinto até mais leve. Mas não poderia terminar esse texto sem parabenizar todas as cacheadas que aprenderam a lidar com o cabelo e agora estão divando por aí. Vocês são mais do que uma inspiração pra todas nós. Continuem assim.

E por hoje é só! Um beijo e até a próxima! :)

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